ATREVER-SE A VER

A conjuntura mundial está difícil para todas as pessoas, porém é ainda mais difícil para os que vivem na pobreza e agora se vem obrigados a depender de ajuda.

Em nome da saúde pública, na América Latina como no resto do mundo, alguns governos tem obrigado à população a ficar em casa e também os trabalhadores informais que já vivem em situações de grande precariedade, a abandonar seus locais de trabalho e toda a posibilidade de obter o sustento diário.

No melhor dos casos, estão sendo feitos alguns programas de apoio para as pessoas e famílias vulneráveis, porém a ajuda não chega para todos e quase sempre os mais pobres são os que ficam de fora: as pessoas sem identificação oficial, aqueles que moram em bairros não reconhecidos pelas autoridades ou afastados, os que não sabem ler ou como preencher formulários, os que não tem acesso à internet, os que falam linguas indígenas… “Todas estas pessoas – nas palavras de Victoria  Huallpa, membro de ATD Quarto Mundo Bolívia- são invisíveis para o Estado”.

Neste contexto, de que a ajuda chegue até quem mais a precisa: é feito colaborando para superar os obstáculos burocráticos e compartilhando o que se tem nas mãos. É feito, especialmente, na base da valentia e a generosidade.

Nesta narrativa, Victoria nos conta como se compromete durante a pademia em favor das pessoas menos favorecidas da sua comunidade na cidade de El Alto: atrevendo-se a sair nas ruas para ver a realidade, escutar e buscar formas de poder atuar junto aos outros.

VER

“No cruzamento de Ventilla tem três bancos. Um dia de manhã vi uma fila enorme num deles, pois somente um deles estava atendendo. A maioria eram idosos, porém cómo podem estar aqui os idosos, se é o grupo mais vulnerável!

ESCUTAR

“Cheguei perto do banco  e perguntei porque estavam esperando tanto tempo. Preocupada, dei uma volta e comecei a telefonar para os números que encontrei em alguns cartazes para perguntar se os outros bancos iriam atender. “Não – falaram- somente atenderemos em Senkata, tem que ir até lá”. Então pensei: Cómo ir até lá, a uma hora de caminhada, se aqui tem somente idosos!”

– Porque você veio? Você não tem um filho?  Não conta com alguém?- perguntei aos idosos.

– Não, não tenho ninguém- responderam.

ATUAR

“Que poderemos fazer por eles agora? Estava nesse momento parada com essa pergunta na cabeça quando vi a irmã Rosa, que conheço da Igreja. “O que faremos?” – ela me disse.  E ficamos falando da situação: tem muita gente jovem que não tem nada porém ignora da ajuda ofercida pelo governo, os idosos que não sabem que o Estado pode ajudar, pessoas que não tem documentos, que moram sozinhos em lugares afastado ou no campo…

“Temos que nos mobilizar- falamos-“ E foi o que fizemos! Pelo menos para que os idosos recebam sua ajuda e não fiquem esperando tanto tempo e desde muito cedo. No dia seguinte voltamos, ficamos na fila e ajudamos para que recebam seu dinheiro. Durante quatro dias temos nos mobilizado para poder ajudar especialmente aos idosos, para que sejam atendidos mais rápido e que pelo menos fiquem mais tranquilos.

“Após isto, eu me perguntava quantas pessoas precisariam agora da nossa ajuda : ficando nas filas ou levando alguma coisa ou comunicando o que  governo iria dar.

“Perto da minha casa tem um Centro de Desenvolvimento Integral. Ali são atendidos umas 350 famílias com 700 crianças e umas 200 famílias sem recursos. “Cómo estará ajudando o Centro neste momento? – nos perguntamos- Se as pessoas precisarem, falaremos com o Pastor da Igreja e nos mobilizaremos para entregar cestas básicas”.

ATREVER-SE

“No momento que saí até o cruzamento de Ventilla, após duas semanas fechada dentro de casa, não tinha pensado muito nas outras pessoas, somente em que eu estivesse bem e que a minha filha estivesse bem. Porém no momento que saí de casa, ví muitas pessoas que realmente precisavam de ajuda. A partir desse momento tenho tentado ajudar da melhor forma possível.

“Neste momento, é muito triste sair na rua, pois sempre se irá encontrar uma pessoa que precisa de algo, não somente que você fale com ela, porém algo para comer… Dá para notar que é o estômago que está pedindo! Podemos rezar, porém também precisamos agir. Se você fica trancado dentro de casa, você não vê a realidade, porém se você sai, você enfrenta a realidade que é muito dura, muito dura.

“Algumas vezes penso que se sair todos os dias, vou querer ajudar as pessoas que vejo e que talvez possa me envolver em algum problema: talvez possa me contagiar; talvez possa parecer extranho que estou ajudando com a documentação; talvez se estou ajudando algum idoso, irão me pedir para ir até La Paz para finalizar a papelada e nesse momento não vou poder dizer que não; talvez até a policia possa me prender por estar ajudando quando não é meu dia para sair e ter que ir 8 horas até algum lugar e até ter que pagar uma multa…

Porém, continuarei saindo: iremos nos ajudar, mutuamente iremos nos ajudar”.

Estes textos foram extraidos de uma entrevista com Victoria Huallpa realizada por video conferência no mês de maio de 2020. Este artigo faz parte de uma série sobre a solidariedade e o cuidado mútuo que se vive nas comunidades mais pobre da América Latina durante a pademia do covid-19.

Se increver na web com os protagonitas deste artigo Solidariedade, cuidado mútuo e resiliência. 

Aprender das iniciativas das comunidades na pobreza da América Latina durante a pandemia.

Terça feira 21 de julho. 10 horas Cidade do México (GMT -5) / 17 hs Madrid (GMT +2)

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