Pela dignidade das pessoas do mundo inteiro

Com a pandemia do coronavírus, também se propagou a pobreza e o abandono das famílias e comunidades em situação de maior precariedade. Para milhões de pessoas na região da América Latina e no Caribe, isolar-se durante o estado de emergência é um luxo que elas não podem se dar.

Sempre estou vendo o que fazer, como ajudar!

Tenho feito um pouco de tudo para que minha família não passe dificuldades. Meu marido é de idade e agora ele não pode sair. Quando nós dois trabalhávamos, sempre comprávamos algumas coisas extras, como iogurte ou uma bolacha … agora em casa é um luxo comê-las.

Às vezes, as vizinhas ou minhas amigas me dizem que em um lugar estão vendendo frango a um preço mais baixo. E eu já estou ligando para os outros! Ou vamos juntas ou eu vou ficar na fila … às vezes outras vizinhas me pedem para ficar na fila por elas e me dão uma gorjeta. Há pessoas que são mais velhas e me pedem para fazer seu mercado, deixo na casa deles e ganho alguma coisa. É assim que eu tenho me ajudado, correndo para cá e para lá.

Ontem eles me ligaram porque eu tinha feito três dúzias de máscaras: “Sarita, precisamos de mais duas.” Eu tenho o tecido, mas não tenho mais linha e a minha extensão quebrou, então eu disse a uma amiga: “o que você acha se fizermos juntas e ganhamos alguma coisa? “, e assim fizemos.

Essa é a única ajuda que posso dar, porque de outra forma não posso ajudar. Eu tento trazer algo para a casa, mas também tento ajudar os outros. Não fico parada, estou sempre vendo o que fazer, o que ver, como ajudar.

Agora entendo minha mãe: é doloroso quando um filho pede e você não pode dar

Nunca me aconteceu que meus filhos quisessem comer alguma coisa e não houvesse. Agora eu entendo minha mãe: é doloroso quando uma criança pede e você não pode dar.

Nós éramos quatro irmãos. Minha mãe saia cedo para trabalhar, depois vinha, cozinhava e ia limpar casas, lavar roupas de outras pessoas, às vezes até a uma hora da manhã … Ela tentava não deixar faltar as coisas da escola e as coisas essenciais …, mas houve dias em que pedíamos e ela nos dizia: “Não, hoje eu não tenho porque eles não me pagaram”.

Quando meus filhos dizem: “Mamãe, eu quero isso”, dizer que não tenho é frustrante porque eles precisam do que você tem  que lhes dar. Mas agora a economia não está muito boa e eu tenho dito que: “Comam o que tem e, mais tarde, quando toda a situação já  estiver normal e eu possa trabalhar e seu pai também, daremos o que o vocês sempre nos pedem”.

Com minha mãe, não tínhamos o que colocar na boca. Meu filho mais velho passou por isso em um tempo quando ele era pequeno e ele não percebeu, mas não queria isso para meus outros filhos.

Adoro minha filha e não quero que algo lhe aconteça, nem que lhe machuque. Quando fui à Guatemala para a reunião do ATD Quarto Mundo, eu andava doida procurando por bonecas … Agora ela tem no quarto dela, está feliz e veja que já está prestes a completar 15 anos!

Tenho que tentar não ficar deprimida para que eles não sintam que estou triste ou desesperada, porque, como sou o pilar, tenho que estar bem e tranquila agora.

Desde criança, sempre gostei de ajudar

Quando criança, via minha mãe trabalhar tanto que, com meus irmãos, saíamos para ajudar num mercado próximo e eles não nos davam nenhuma gorjeta, nos davam almoço ou café da manhã … Às vezes vendiam ovos e nos davam um pouco, ou nos davam um quilo de arroz para que minha mãe não vivesse com tanta pressão em casa. Quando meu irmão mais velho chegava do trabalho, ele se exibia porque éramos os mais novos e dizia: “Não, essa é a nossa obrigação como mais velhos”. “Mas nós também podemos!”, dizíamos e saíamos para ajudar …

Desde criança, sempre gostei de ajudar.

Agora, durante a quarentena, temos cozinhado com lenha para economizar, mas paramos porque a casa de uma família queimou inteira em outro assentamento. E veja, neste momento as famílias não têm muito, mas quase todas deram algo a essa família. Meu filho José levou algumas roupas e comida para eles … Aprendi que não é apenas dar, não é só que te deem, é também, se você tem, dar  de coração.

Desejo que meus filhos aprendam a ser mais solidários. Eles já são solidários, mas que aprendam a ser mais e a valorizar as pessoas que têm menos.

Neste momento de quarentena, eu gostaria que as pessoas que podem comprar algo caro, agora pensem que há muitas pessoas que estão passando muito mal … Em La Vizcachera há crianças que não têm água … e nós somos milionários aqui porque temos água, temos luz, temos que comer e lá há pessoas que não.

Nós devemos nos ajudar.

Há três dias, um homem veio e nos deu alguns vales porque eles estavam dando uma galinha por vale. Como ele me conhece, me disse: “Pegue mais três vales, você decide se guarda e leva para seus filhos ou se distribui”. Eu disse: “Eu sei quem precisa!” Então chamei algumas vizinhas e fomos fazer fila para pegar o frango. No caminho de volta, uma delas, que voltava do trabalho na padaria da irmã, me deu um pacote de biscoitos. Eu disse: “Não, pode te fazer falta! “, e ela: “Não, eu trouxe dois sacos e quero te dar um, porque você também ajuda quando tem! “.

Já não se arrisque

Ontem, eles me chamaram para falar que havia um caso de covid-19 no morro, e me caiu como um balde de água fria. Então fui conversar com a família e aconselhei que era melhor nos dizerem o que fazer, como o ajudamos. Se fosse necessário levá-lo ao hospital, poderíamos fazer uma vaquinha com os vizinhos e comprar os remédios que estavam tomando. A assistente do posto de saúde também veio e disse que não tinha covid, eram apenas os brônquios, ela fez o teste rápido, nos acalmamos um pouco!

Em vez disso, fizemos uma vaquinha para que pulverizem as escadas do bairro contra o covid e amanhã o farão.

Toda essa situação me faz refletir sobre o meu modo de ser: se eu posso dar, se eu posso ajudar mais, se eu tiver de estender a mão, eu vou estender …, mas sempre atenta a minha saúde e a da minha família. No começo, pensava que não ficaria doente, mas percebendo que há cada vez mais casos, já estou com um pouco de medo também.

Agora minhas vizinhas me dizem: “Fecharam o mercado, já não se arrisque, não vá mais. Se você precisar de algo, estamos aqui”. Outras vezes, quando elas precisavam de mim, me chamavam e diziam: “Me compra isso”. Agora já não me procuram mais, pelo contrário, me dizem: “Cuide-se, proteja-se, não saia”. É isso que valorizo muito.

Eu tenho que ser professora quatro vezes: pré-escola, fundamental, ensino médio e superior.

Até professora eu virei. Eu tenho que ser professora quatro vezes: pré-escola, fundamental, ensino médio e superior.

Às vezes tenho que me sentar com Adrián, que está na pré-escola, tenho que tirar uma foto como evidencia e temos que desenhar ou assistir aos vídeos que o professor envia, também fazemos bonecos de papel.

No primário, estamos com as somas e as multiplicações, corrigindo ou dizendo o que está certo. Para mim é uma satisfação, porque no ano passado a professora reclamava e dizia: “Matías não quer escrever. Em matemática é muito bom, mas não em comunicação”. Mas alguns dias atrás disse ao meu filho: “Olha, Matías, isso mesmo” e agora ele está escrevendo sozinho! Ele me pede para fazer frases curtas e as transfere para o caderno … já vou soltando ele um pouco. Na educação física, você tem que dançar! E até fizemos fantoches usando meias …

Em troca, no ensino médio, me dizem: “Mãe, eu não entendo” e preciso pesquisar no Google as coisas que também não entendo e preciso explicar à minha filha. Também com o Cristian, tenho que estar atrás dele. Às duas da tarde já deve estar pronto para as aulas na TV.

Com José, tenho que ser cinegrafista, gravar os vídeos com o celular. Também tenho que procurar as coisas que faltam com algumas vizinhas para que ele apresente seus trabalhos.

José faz sua prova final neste sábado. Ele tem que servir três pessoas e elas o qualificarão. Tudo depende desta prova para que o chamem para um emprego. Sua professora disse que seus vídeos são excelentes e o parabenizaram.

Na classe do Marco, há crianças que têm computadores e eles entram na internet, mas há outras como nós que não têm um laptop. Um dia eu disse à professora que minha situação é difícil, moro no morro e não tenho essas possibilidades … A parti daí, todas as mães também começaram a reclamar. Então, foi dito que as tarefas não seriam da internet, mas da televisão e do rádio.

Mas a professora nos envia para imprimir lições da internet e, às vezes, são12 folhas, 8 folhas … Todos os dias eu tenho que imprimir e copiar para que meus filhos façam a lição de casa. Para não gastar muito em impressão, duas folhas têm que copiar ou uma folha é escrita por meu filho Marcos e eu a outra, e o restante envio para imprimir, porque às vezes eles também se cansam ao escrever.

A aula deveria ser que a professora esteja explicando aos alunos. No início, a professora estava fazendo isso, mas agora não mais. Só envia o áudio via WhatsApp e as crianças já têm o que fazer.

Sim, eu me tornei uma professora.

Sempre me dediquei ao trabalho, às vezes chegava cansada e apenas explicava à minha filha, mas agora, como professora de meus filhos, tiro meu chapéu para os professores, porque é preciso ter paciência e acompanhar cada um em sua forma de aprender. Com alguns você tem que dançar, outros você tem que fazer rir e assim estamos …

Pela dignidade das pessoas do mundo inteiro

Se você pode colaborar, colabore, mas se não puder fazê-lo, porque nem todos nós podemos colaborar, dê força. A palavra de encorajamento sempre permanece em sua mente, está sempre presente e lhe dá mais força para continuar.

No começo, eu via o Movimento como pessoas que vão ajudar outras pessoas, mas agora eu já sei o significado das letras ATD e tenho colocado em prática na minha vida. As palavras são “Atuemos todos pela dignidade”, mas não é apenas pela sua dignidade, mas também pela dignidade das pessoas de todo o mundo, quer você as conheça ou não.

Tenham força, tudo vai passar.

Esses textos são trechos de várias entrevistas realizadas com Sarita Guevara por videoconferência.

O artigo faz parte de uma série sobre a solidariedade e cuidado mútuo, vivenciada nas comunidades mais pobres da América Latina durante a pandemia de covid-19. Convidamos você a participar também. Descubra como você pode agir aqui.

 

 

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