SOLIDARIEDADE, CUIDADO MÚTUO E RESILIÊNCIA

Aprender com as iniciativas das comunidades pobres da América Latina durante a pandemia.

Os invisíveis

“Esta crise – fala Martha Calizaya desde El Alto em Bolívia- nos leva a repensar para onde estamos levando nossas vidas como seres humanos”.

A pandemia do covid-19 tem posto em evidência as desigualdades, o esquecimento e os maus tratos que sofrem as pessoas mais pobres ao longo dos séculos. Milhões de pessoas ficaram sem recursos econômicos para enfrentar gastos cotidianos como aluguel, luz, água… e até para se alimentar. Além do mais, a ajuda material proposta por alguns governos não chega até todos e tem muitas pessoas que não tem sequer a documentação necessária para ter uma existência oficial e poder assim aceder aos seus direitos fundamentais. A crise bate com força nas pessoas abandonadas, as que ficaram para trás, as que continuam sendo esquecidas… pessoas invisíveis para a sociedade.

“Tem gente invisível – explica Victoria Huallpa também desde El Alto- pessoas que nem nos damos conta que existem, pessoas que estão sem documentos, que vivem o dia a dia, pessoas idosas que moram sozinhas, pessoas que vivem como caseiros de algumas terras. “Eu tenho este papelzinho, me falou um idoso me mostrando uma certidão de nascimento muito antiga”. Não sei se com isto me darão ajuda.” Estas são pessoas praticamente invisíveis para o Estado e também praticamente invisíveis para todos nós, até para mim, pois eu não sabia que tinha pessoas nesta situação”.

Na Guatemala, como na Bolívia, numerosas pessoas são excluídas. “A sociedade- nos contas Luis Zepeda dede a capital guatemalteca- exclui dia após dia as famílias pobres, as deixa de lado, são invisíveis para o governo, porém ainda mais pela própria sociedade. A sociedade sabe quem são os realmente precisam de ajuda, quem são os que necessitam alimentos ou até de um pãozinho. É difícil encontrar uma mão que ajude”.

“Somos comunidades marginalizadas- insiste Aida Morales desde Escuintla- A ajuda não chega, pois são consideradas áreas vermelhas, porém é justamente aqui onde a ajuda deveria ter chegado, pois são pessoas que não tem acesso a um trabalho, que dependem do que conseguem dia a dia”.

Com a quarentena há mais sofrimento.

A pandemia tem agravado a discriminação em todas as formas para as pessoas em situação de pobreza: educação, trabalho, saúde, acessibilidade aos alimentos e à água… porém a discriminação que sofrem estas comunidades não é nova: “Aqui – explica Julia Marcas desde La Vizcachera, nos arredores de Lima, Peru- levamos anos vivendo sem água nem esgoto e ninguém nos escuta. Agora estamos pior: com a quarentena, mais sofrimento”.

Na área da educação também tem crescido o sofrimento. O contexto de confinamento tem obrigado os governos a buscar soluções oferecendo aulas no rádio, televisão e internet. O desafio está sendo enorme para todas as famílias, porém o preço mais alto está sendo pago pelos meninos e meninas mais pobres que fazem parte de famílias que tem pouco acesso à internet ou contam somente com um ou nenhum aparelho eletrônico no seu lar, que tem pouco dinheiro para fazer fotocopias e muitas menos possibilidades ainda de receber ajuda nas tarefas por parte dos seus pais…

“Tem crianças na sala do Marcos que tem computadores e podem entrar na internet, porém tem outros com nós, que não tem nada. Um dia falei com a professora que minha situação é difícil, moro no morro e não tenho essa possibilidade… Algumas vezes pedem para imprimir os trabalhos da internet com mais de 12 folhas, 8 folhas… Todos os dias tenho que imprimir e também copiar para que os meus filhos possam fazer suas tarefas. Para não gastar muito, se temos que copiar duas folhas, o fazemos a mão. Meu filho Marcos escreve uma folha, eu a outra e mando imprimir o resto pois também cansam de ficar escrevendo. Já virei até professora, quatro vezes professora!: de jardim, primária, secundária e de instituto”- conta Sarita Guevara desde Lima, Peru.

Nesta situação, os pais e mães mais pobres têm ficado no meio de um grande sofrimento, fazendo verdadeiras proezas para acompanhar aos seus filhos. Logo, muitos professores tentam ficar perto dos seus alunos e das suas famílias da melhor maneira possível. Outros, porém, tem acusado as crianças mais pobres e seus pais de não se esforçar o suficiente. Da Guatemala temos um exemplo flagrante: durante a quarentena, o governo tem continuado a oferecer para todas as crianças o café da manha escolar a través de uma entrega quinzenal de mantimentos nos seus lares. Embora seja um direito, numa das comunidades mais pobres da capital, uma escola tem condicionado esta ajuda de alimentos com a entrega de tarefas feitas pelas crianças. Mais uma vez, para as famílias mais pobres, que dependem de ajuda, um direito tem se convertido numa ferramenta de humilhação e opressão contra eles.

Da mesma forma a opressão não é nova, a solidariedade que se vivencia no interior destas comunidades e bairros pobres também não é, não apareceu neste contexto de pandemia, porém faz parte das práticas cotidiana em favor do bem estar comum.

“Neste tempo – continua expondo Martha na Bolívia- nos temos dado conta que não conhecemos suficientemente bem nossos vizinhos. Conhecemos o vizinho do lado, e o do lado dele, porém não conhecemos todos os vizinhos e não sabemos se necessitam algo. Dei-me conta que faz muita falta conhecer e a partir do conhecimento poder compartilhar. O ser humano tem a necessidade de se encontrar com o outro. Estamos desesperados por nos poder ver, por querer nos reunir outra vez. Isto nos faz sentir que sempre se tem necessidade do outro”.

Esta tomada de consciência convida a cada um de nós a ficar atentos às pessoas ao seu redor, para conhecê-las e avançar juntos pra que ninguém fique para trás: “Eu não sabia que tinha famílias invisíveis, porém agora eu sei, sei quem eles são. Eles já não irão ser invisíveis para mim. Espero também que assim também seja para o Estado, pois nos esperam momentos difíceis”- finaliza Victoria.

A gente se necessita de verdade

“A gente tinha muito para aportar, muito para dar, muito para falar, porém ninguém nos escutou quando fomos crianças, nossos pais não foram escutados quando foram pais, ninguém escutou nossos irmãos” explica Luis. “É necessário – continua Martha- criar espaços para poder expressar o que sentimos ou pensamos”. Estes espaços me ajudam a continuar refletindo, me reconhecendo a mim mesma e a me encontrar também. “A gente se necessita de verdade” – resume Roxana Quispe.

Ao longo destes meses, ATD Quarto Mundo tem criado espaços virtuais de diálogo nos quais podemos refletir conjuntamente sobre as conseqüências da pandemia do covid-19. As respostas que foram se forjando no interior das comunidades para resistir ao desamparo e não deixar ninguém para trás tem estado no coração destes diálogos. O objetivo é levantar coletivamente a voz para se dirigir à sociedade não como vítimas, porém como pessoas de direito e agentes de mudança.

Este artigo encerra uma série que tem servido de eco para estes atos de solidariedade e cuidado mútuo tão presente nos bairros e nas comunidades mais pobres da América Latina durante a pandemia.

No dia 21 de julho foi organizado um seminário on line para ser mais abrangente e permitir que outros possam aprender e se inspirar. “Nós queremos –explica Luis- ser reconhecidos como seres humanos, que não continuem nos deixando de lado, que nos sejam dadas as ferramentas para trabalhar, para ir em frente, pois nós sabemos que elas existem porém estão escondidas, que somos pessoas e que podemos lutar, que podemos ir em frente dia a dia”.

Lograremos que cada pessoa sobre a terra seja verdadeiramente reconhecida como ser humano? Será que não haverá mais invisíveis?

Lograremos que estes atos de solidariedade e cuidado sejam escutados e tidos em conta pela nossa sociedade como vozes de esperança?

Lograremos compreender de uma vez por todas que nos necessitamos de verdade e que somente nos unindo faremos um mundo melhor?

Seminário on line

Solidariedade, cuidado mútuo e resiliência: aprender das iniciativas das comunidades empobrecidas da América Latina durante a pandemia.

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Os membros de ATD Quarto Mundo que participaram a distância deste exercício de diálogo, reflexão e expressão de solidariedade e cuidados foram:

Desde as comunidades: Victoria Huallpa, Paulina Mollericona, Martha Calisaya, Roxana Quispe e Susana Huarachi de Bolivia; Luis Zepeda, Sindy Sequén, Vivi Luis e Aida Morales de Guatemala, Tatiane Soares de Brasil, Milena Foronda de Colombia; Sarita Guevara e Julia Marcas de Perú. Todos eles são parte de uma corrente de solidariedade e tem participado sublinhando a cumplicidade das suas comunidades e famílias – mães, casais, filhos, irmãos- no desenvolvimento das suas iniciativas.

Na escuta, transcrição e apoio técnico: Soledad Ortiz e Diego Sánchez de Bolivia; Daniele Mazzarelli de Brasil; Amelie Lemoine e Fray Quispe de Perú; Julieta Pino, Beatriz Monje e Matt Davies de México.

Apoiando a realização do seminário on line: Carolina Sánchez Henao desde Colombia e Carolina Escobar Sarti de Guatemala.

Na tradução para o português: Victoria Spangenberg e Marcus Yoshida

E outros membros de ATD Quarto Mundo que tem contribuído: Yola Oblitas, Luciano Olazabal, Miriam Pérez e Lara Philibert em Perú,  Mariana Guerra em Brasil, Pilar Boche em Guatemala, Rocío Rosales, Marcelo Vargas e Cinthya Torrez em Bolivia e Gracia Valiente e Jeff Steiner do site da ATD Quarto Mundo.

 

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