Um caminho concreto com os mais pobres

Fotografia: Edith Saire © ATD Quarto Mundo


Natural do “centro do mundo andino”, Cuzco em Peru, Edith é voluntária na ATD há cerca de dez anos. Retomemos aqui seu denso percurso.

Uma imersão na vida dos mais pobres

Imersa na fé católica desde sua infância, Édith desejava tornar-se religiosa. Aos 19 anos, encontrou a congregação das Irmãs da Divina Providência de Créhen, vinculada com Teologia da Libertação. Porém, quatro anos depois, devido à idade avançada das irmãs, a congregação fechou suas portas. Édith voltou-se para estudos em informática, mas sua atração pelo mundo social continuou intensa.

Uma vez diplomada, uma amiga propôs-lhe dar aulas de informática para crianças e jovens na cidade de Cuyo Grande, cujo trajeto era de uma hora de sua cidade natal: “foi realmente por acaso, ela não tinha mais como dar estas aulas. Então, me chamou”. Depois disso, passou a trabalhar em estreita colaboração com o movimento ATD Quarto Mundo que criou este projeto: “atiçou minha curiosidade, diz. Compreendi que [o movimento] lutava pela erradicação da miséria”. Édith fala quéchua, o que representa uma grande vantagem para se aproximar da população local. “ATD Quarto Mundo criou grupos de famílias, chamados Uyarinakusunchis em quéchua, o que significa “escutamo-nos”; em outros lugares do mundo, são chamados Universidades Populares Quarto Mundo. As famílias falavam em quéchua e eu fazia as traduções e as interpretações. O quéchua é a língua de meus avós”. Desde então, encantada com esta experiência, Édith nunca mais deixou a ATD Quarto Mundo para buscar “a igualdade para todos e o respeito aos direitos humanos .

Pude me impregnar da vida muito difícil dos mais pobres e do trabalho da ATD Quarto Mundo diante destas situações. Em particular, fiquei sensível à mudança de olhar sobre os mais pobres, pois fundamentava-se no respeito à dignidade humana. Para mim, foi revelador. Eu reencontrava o sentido que eu queria dar a minha vida, este caminho concreto ao lado dos mais pobres.

Um ano depois de seu encontro com o movimento, Édith integra a equipe de voluntários permanentes de Cuyo Grande.

Em 2009, durante uma formação, ela encontra seu futuro marido, Jonathan, jovem voluntário francês. Então, propôs-se ao jovem casal realizar uma missão na Casa de Férias para famílias La Bise (O Beijo), localizada em uma região serrana da França, no Jura.

Possibilitar um reencontro entre familiares

La Bise é uma Casa de Férias onde filhos e pais em situação de grande pobreza passam uma temporada. Estas famílias, muitas vezes separadas por decisões judiciais, podem se encontrar em um lugar agradável, aprazível e propício para o descanso e trocas. Esta nova missão afetou profundamente Édith:

  • Acolhemos tantas famílias, cada uma com sua história, mas com um ponto comum: Um profundo sofrimento gerado pela retirada da guarda do filho. Pude observar os estragos gerados por esta separação, uma destruição tanto emocional quanto física. Era real, as pessoas ficavam paralisadas por este sofrimento. Ouvi dizer que a pobreza e extrema pobreza existiam em todos os lugares, em todos os países do mundo, mesmo naqueles mais desenvolvidos como a França, Luxemburgo, a Suíça ou a Bélgica, países dos quais são originárias muitas das famílias que acolhemos em La Bise. São países ricos que não conseguiram encontrar solução para a miséria dentro de suas próprias fronteiras. Numerosas pessoas em situação de pobreza estão subordinadas a um sistema de assistência e de controle que rompe com a motivação, o entusiasmo da inovação; a esperança e os sonhos que nos ajudam a projetar um futuro. O que permite o equilíbrio na vida de um ser humano? Como uma pessoa imobilizada por causa da assistência, da distanciação e dos julgamentos poderia encontrar uma palavra libertadora que lhe permitisse pretender a construção de seu próprio mundo?”

Durante todas estas estadias, numerosas atividades foram realizadas: passeios e banhos no lago, cachoeiras, visitas a grutas, atividades manuais como pintura, costura, confecção de álbum de fotos de família, teatro etc. Por meio destas atividades, Édith descobre que em certos casos, “as pessoas tinham muitas dificuldades, principalmente no tocante à coordenação motora fina. Isso afetava também sua criatividade. Vendo isso, eu me perguntava: o que está acontecendo? Fiquei muito tocada”. Durante as oficinas de massagens, podia-se ver nascer uma confiança recíproca: “a gente se massageava, uns aos outros, eles adoravam isso […] Aos poucos, as pessoas se abriam”.

“Lembro do rosto de cada pessoa na sua chegada. Podia-se perceber sobretudo o cansaço, uma tristeza, uma amargura e uma falta de confiança. Por contraste, quando as pessoas iam embora de La Bise, seus rostos revelavam uma transformação surpreendente: elas sorriam; seus olhos brilhavam; realçava-se a beleza própria de cada criança e dos pais; podia-se ver a felicidade”.

O engajamento da família em Cuyo Grande

Cuyo Grande, Peru, 2020 © ATD Quarto Mundo

Depois desta missão nas montanhas francesas, o casal, agora com três filhos pequenos, voa para o lugar no qual Édith fez seus primeiros passos enquanto voluntária. Assim, ela volta para Cuyo Grande, no Peru.

Mesmo sendo originária desta região, ela descreve uma experiência completamente nova diante das diferenças entre o meio urbano e o meio rural peruano “dei-me conta que era uma estrangeira em Cuyo Grande”. Dentre suas descobertas, ela ressalta:

  • descobri que a Pachamama (a mãe terra) tinha um valor profundo. Ela nos alimenta e nos dá a vida. Podemos cultivá-la nossa vida toda, ela se mantém generosa. Fiquei surpreendida pela tenacidade das mulheres que dedicavam suas vidas à terra, mas principalmente pela capacidade que elas têm para se projetar, se organizar e sonhar. A vida não é fácil para as pessoas as mais pobres no campo. Sobreviver é uma luta cotidiana. Muitas não têm acesso para cultivar a terra e é por isso que elas têm que oferecer sua força de trabalho para outros. Têm empregos muito duros em troca de um pequeno salário ou de um prato de comida. Alguma coisa também me marcou muito: as assembleias da comunidade onde se discute os interesses do grupo democraticamente. Estas assembleias dão o ritmo da vida comunitária. A voz dos membros da comunidade tem que ser ouvida, respeitada e executada pelas autoridades”.

Como todos os moradores, Édith et Jonathan participaram não somente das assembleias da comunidade, bem como dos trabalhos comunitários (conserto de ponte, de estrada etc.), das colheitas no campo, das construções. Aos poucos, eles também participaram dos eventos da vida quotidiana dos moradores: enterros, casamentos, festas etc.

Dentre estes momentos compartilhados, Édith ficou muito impactada pelos tempos de cozinha coletiva no preparo das refeições escolares. A escola de Cuyo Grande, não tinha refeitório. Todos os dias, os pais se revezavam para fornecer parte dos alimentos e cozinhar para as 250 crianças da escola (do jardim ao ginásio): “com três crianças em turmas diferentes da escola, nossa vez se repetia rapidamente”. Em geral, são as mulheres que cuidavam destas tarefas até que Jonathan passou a realizá-las. Logo depois, outros homens se juntaram a ele. Segundo Édith, cada momento passado com outros pais era a ocasião de conhecer melhor os habitantes, como

“as longas conversas compartilhadas com cada mãe. Guardo verdadeiras lições de vida dessas mulheres. Eu conhecia a forma delas se organizar, seus estados de saúde, seus sonhos, suas esperanças, suas forças e suas fragilidades”.

Paralelamente, Édith et Jonathan desenvolveram as bibliotecas de rua, ou melhor, as “bibliotecas de campo”: “Lá, estamos em plena serra, não há rua. Então, preferimos falar de ‘campo’”. Mais uma vez, estas relações permitiram reforçar laços com crianças e suas famílias, em particular com pessoas excluídas da cidade. Em todos estes casos, o engajamento de todos os membros da família confere-lhe um sentido pleno:

“Nossos filhos abriram-nos muitas portas. Isso permitiu nossa inserção e a conquista da confiança dos moradores de Cuyo Grande. Esta vida compartilhada ofereceu um grande equilíbrio para nós, como casal e um enriquecimento para nossa família”.

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