Não estivemos sozinhos

Ao longo deste texto, Vivi Luis, militante do ATD Cuarto Mundo na Guatemala, conta suas primeiras reflexões para que famílias muito pobres de seu bairro e outros arredores não estejam sozinhas durante a pandemia, unindo-se a outras pessoas para continuar lutando contra a pobreza e a desigualdade através do cuidado mútuo e da solidariedade, valores aprendidos com Maritza, sua mãe.


Nos momentos em que começava o confinamento, a primeira coisa que veio à nossa cabeça foi “o que vai acontecer com as famílias?”. Também nos perguntamos sobre as artesãs do projeto Trabalhar e Aprender Juntos (Trabajar y Aprender Juntos – TAJ): O que acontecerá com aquelas com mais dificuldade? Sabíamos que deveríamos continuar apoiando-as com suas provisões, e acreditávamos que outras artesãs poderiam encontrar apoio através de um membro da família como a mãe ou os irmãos…

Com isso em mente, passei a visitar levando provisões para as artesãs que não têm outra renda além dessa. Quando cheguei em casa, falei sobre isso com minha mãe. Por volta das 11 horas da noite, de repente ela saiu da cama.

–          “Vivi, estou pensando em uma família!”, ela me disse preocupada.

–          “Mãe, eu em outra”, respondi.

–          “Você pensou em tal artesã? Ela trabalha no mercado e agora o mercado não está gerando renda, quem vai sustentá-la? A mãe dela vende na porta de uma escola e agora está fechada. Suas irmãs? Todas estão casadas e a prioridade serão suas próprias famílias… continuou.

Ter minha mãe ao meu lado é chave para mim, ela sempre me incentiva, me encoraja e me aconselha. Ela é uma mulher sábia, e naquela noite ela estava certa: muitas famílias não teriam apoio dos outros. Fiquei pensando no que posso fazer. Além das artesãs da oficina, conheço muitas outras famílias que iam viver algo difícil, pessoas que vivem do dia-a-dia e já não podiam mais sair.

A solidariedade, já a temos como seres humanos

– “Podemos ver com qual dos nossos amigos preparamos um saco de comida para apoiá-las. Não vamos dividir dinheiro, vamos apoiar com a ajuda de amigos da família”, sugeriu meu irmão.

Minha família estava animada, meus irmãos fizeram as listas com nomes de pessoas que poderiam nos apoiar.

A equipe do Movimento ATD Quarto Mundo também já tinha pensado em como apoiar e os amigos e aliados do Movimento estavam perguntado o que está acontecendo com as famílias, como elas estão vivendo.

Já estávamos trancados há 15 dias! Nos mobilizamos e nos unimos porque todos nós já nos havíamos feito as mesmas perguntas. Penso que a solidariedade, já a temos como seres humanos, às vezes só falta um empurrãozinho. Muito rapidamente as pessoas responderam: Eu posso dar! Para qual conta devo depositar?

Posso me dar ao luxo arriscado de ir encontrá-la.

Para mim, a Dona Tania é uma mulher muito importante porque ela sempre me ensina e me dá notícias sobre as outras famílias que vivem na parte alta da La Arenera. Ela não pensa só nela, está pensando também em suas vizinhas, em suas irmãs…: “Nestes momentos, todos nós precisamos”, dizia. Como eu não podia visitar todas, através dela podia saber como estavam Dona Celia, Dona José, Dona Alba…

A La Arenera é dividida em duas partes. A Dona Tania tem a visão das famílias da parte alta, e eu tenho a visão das famílias da parte baixa porque eu moro lá.  Posso me dar ao luxo, eu dizia, o luxo arriscado de ir encontrar a Dona Tania porque eu vivo no mesmo bairro. Queria saber o que ela realmente estava vivendo, se estava enfraquecendo ou não. Era importante ouvi-la.

Não podíamos deixá-la sozinha por duas semanas

Dona Wanda é uma mulher que sofre muito. Às vezes ela não tem força para se levantar, você tem que estar com ela, motivá-la, acompanhá-la e conversar com ela porque ela vive sozinha. Na verdade, é uma família muito pobre.

Por causa dessa pobreza, muitas pessoas a isolam e criticam ela. As pessoas dizem que são pobres, têm a casa cheia de lixo… Seus sobrinhos coletam latas e tudo o que pode ser reciclado, então eles têm latões cheios de coisas fora de sua casa. As pessoas estão sempre gritando com eles porque cobrem o caminho, porque queimam e fazem fumaça… por qualquer coisa. Assim é a vida deles.

Ela também participa da oficina TAJ. Não podíamos deixá-la sozinha por duas semanas. Mesmo que recebesse suas provisões, não era suficiente, sabemos que conversar lhe ajuda, estar com outras pessoas lhe ajuda.

O acompanhamento e as visitas para mim são necessários e tinha que continuar fazendo, pelo menos do lado da minha comunidade.

Estou sozinha, não tenho ninguém com quem conversar!

Dona Elena tem 65 anos e mora sozinha desde que sua última filha saiu de casa. Faz um ano que a Dona Elena deixou a oficina TAJ. No entanto, de vez em quando ela vinha à casa do ATD Cuarto Mundo para nos visitar, para tomar um cafezinho. Pensei que com certeza a Dona Elena deve estar sozinha em casa.

“Estou sozinha, não tenho com quem conversar! Dizem que não tem que sair de casa porque eu já sou velhinha e eu vou pegar essa doença.” – me disse a Dona Elena por telefone.

Conversamos duas vezes por semana, às vezes ficamos uma hora ao telefone. Me conta o que sonha, o que pensa, até o que acontece com suas galinhas, porque são tudo o que tem. Ela não tem TV em casa, então eu conto o que está acontecendo.

Agora penso nela ainda mais.

“Vivi, quero perguntar se você me levaria para um asilo e iria me ver nos dias de visita. Não tenho ninguém, ninguém se importa comigo, às vezes eu não tenho dinheiro para meus remédios e isso me faz sentir como se eu não valesse a pena para ninguém. Mas eu quero que você me diga que você vai me ver, porque também não quero ficar sozinha naquela casa… para ficar sozinha, eu fico aqui”, ela me disse na semana passada.

“Dona Elena, temos que falar sobre isso, agora não podemos fazer nada, mas eu prometo a você que se você for a um asilo eu vou vê-la enquanto eu puder, enquanto estiver viva …” – respondi.

Estiveram sempre conosco

Quando eu era pequena, com minha família vivemos muitas coisas difíceis, tristes, vivemos muita solidão, muita crítica e isso marcou minha vida.

Jaime, Lorenzo e Paul são voluntários permanentes que fizeram parte da equipe na Guatemala ao longo dos anos. Eles são pessoas valiosas para mim porque naqueles tempos difíceis eles estiveram sempre conosco. Eles me ensinaram a maneira de não abandonar ninguém, independentemente da vida dura, da vida difícil que você pode ter.

Eu tinha mais ou menos 14 anos e ficamos sem a mãe. Ela era tudo para nós e a vida tirou-a de nós por três meses. Ficamos assim, sem nada, sozinhos na vida.

Lembro-me que o Lorenzo chegava às sete da manhã e nos dizia: “Vocês têm que se levantar, têm que ir para a escola…” Todas as manhãs, tocava à porta da minha casa. Os amigos da minha mãe também estiveram conosco, isso marcou minha vida e me ensinou que nunca devemos ficar sozinhos.

Naquela época não vivíamos uma pandemia, não era o que nos impedia de sair, era a crítica das pessoas. Não era verdade o que diziam sobre nós, mas para essas pessoas, éramos o pior.

Eles nunca criticaram, nunca nos julgaram, pelo contrário, nos apoiaram. “Vocês não são isso”, eles nos diziam, “Vocês podem fazer muitas coisas”. Éramos um bando de crianças.

Agradeço a Deus porque eles confiaram em nós, nos encorajaram e nos deram força. Agora isso se tornou minha própria força e é o que me incentiva a não me deixar as pessoas sozinhas. Agora minha vida é muito diferente de quando eu tinha 14 anos. Não temos muito, mas temos o suficiente para viver e compartilhar com os outros, e esses outros sempre serão a prioridade para minha família e para mim.

Agora estamos livres, somos alegres, somos felizes.

Essa pandemia nos fez reduzir o tempo juntos, mas não sua essência.

Esta pandemia nos disse: sem aproximação, nada de visitas, nada de encontros com outras pessoas.

Mas estamos aprendendo muito sobre estar atento ao outro, sobre preocupar-secom quem está ao nosso lado, sobre não guardar a primeira impressão, está nos permitindo descobrir o outro e criar laços.

É a coisa mais importante que estamos aprendendo como seres humanos. Essa pandemia nos fez reduzir o tempo de juntos, mas não sua essência. Então diremos: não estivemos sozinhos.

Esses textos são trechos de uma entrevista com Vivi Luis realizada por videoconferência em maio de 2020. O artigo faz parte de uma série sobre solidariedade e cuidado mútuo nas comunidades mais pobres da América Latina durante a pandemia covid-19.

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